
O Português Falado no Brasil _Terceira Parte
- RICARDO GOMES RODRIGUES
- 29 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
A linguagem no ritmo verbal
Os verbos não apenas comandam as mensagens, mas também dão ritmo à linguagem através de seus tempos.
Passado, presente e futuro são declinações das formas verbais que impõem ritmo na construção de frases, orações ou sentenças.
E mais, as noções de indicativo, subjuntivo ou ainda particípio formam uma espécie de “tempo” nos ritmos em que falamos.
Um caso interessante é o particípio preposicionado que exerce importante função nesse tempo do ritmo verbal no modo em que se fala em Portugal.
E a pergunta que vem em seguida é por quê esse ”tempo” verbal não é usado no Brasil.
A resposta é porque essa forma verbal não é ensinada nas escolas do Brasil já que o verbo preposicionado (particípio) é uma peculiaridade dos tempos usados nos ritmos da linguagem do português de Portugal.
Veja esse trecho da famosa canção de Geraldo Vandré:
“Caminhando e cantando e seguindo a canção”.
“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
As formas gerundiais usadas aqui por Vandré dá um ritmo cadenciado aos versos, criando um tempo de crescente musicalidade que atinge apoteose nos versos seguintes em (Quem sabe faz a hora...).
Aqui se pode observar as diferenças entre as formas gerundiais usadas no Brasil versus as formas do particípio preposicionado do português de Portugal.
Se Vandré fosse português e dissesse:
...”a caminhar e a cantar e a seguir a canção...”
O tempo do ritmo da musicalidade em que o verbo empresta a essa forma poética seria totalmente diferente.
As formas gerundiais são muito apropriadas para criar um tempo crescente no ritmo da musicalidade na forma em que a língua é falada.
Já as formas do particípio preposicionado típico de Portugal empresta um outro ritmo a linguagem que não favorece esse crescente no tempo da musicalidade em que se fala o português dessa forma “caminhando e cantando e seguindo a canção...”.
Essas diferenças no final formam essa interessante diversidade no ritmo em que se fala o português, criando assim um tempo diferenciado na musicalidade que no final a conjugação verbal impõe a fonética e a pronúncia.
Ir ou vir?
Vê já esse exemplo:
Eu ia do mesmo modo que tu fostes, e ainda vou, pois que continuo indo.
O interessante aqui é observar como as variações nos tempos verbais mudam as formas do verbo para se ajustarem a musicalidade da fala, emprestando tempos de verbos diferentes (ir e vir) como se fossem os mesmos.
Por que será isso?
Observe que, se, eu "ia", (no pretérito imperfeito), seria impossível que tu não fostes, (no passado perfeito), já que se vou, (no presente) é porque continuarei (futuro do presente ) indo (gerúndio) desde o passado até o presente, indicando que possivelmente essa ação verbal continuaria no futuro.
Aqui as formas verbais se adaptam ao tempo do ritmo em que se fala, emprestando de diversos verbos, e os “misturando”, pois que não se encontra, nesse caso, outra possibilidade entre “ir” ou “vir”, já que formam um certo vai-e-vem fonético que impacta a pronúncia e a ideia do que se quer comunicar logicamente.
A fonética e a pronúncia são partes integrantes da lógica que os tempos verbais “impõem” nos ritmos da linguagem, nos fazendo entender claramente desde o balbuciar até a formação de frases, orações e sentenças, criando a famosa indagação: “o que você quis dizer mesmo?”
A canção popular do norte-nordeste do Brasil, canta:
“Olê mulé (mulher) rendeira”
Olê mulé ( mulher) rendá”
“Tu me ensinas a fazer renda”
“Que te ensino a namorar...”
Nesse caso o ritmo no tempo crescente através de repetições nessa forma poética popular transforma um substantivo (renda) num espécie de advérbio quando o ritmo da fala o transforma em rendá (querendo dizer aquela mulher que faz rendas ou trançados).
Assim, a licenciosidade poética transforma um substantivo (renda), pronunciado nessa forma como rendá numa espécie de forma "adverbial" que tenta modifica o verbo trançar (como “rendar”, que não existe, expressando o ato de fazer rendas).
Aqui a licenciosidade poética cria um ritmo próprio num certo tempo verbal de uma forma que não existe (rendá ou rendar) para repetir que a mulher rendeira faz rendas de modo constante e continuado.
O que se pode concluir através desse artigo é que a norma estrutura a linguagem intuitiva-popular, tentando resolver a melhor maneira de se expressar logicamente e com clareza, mas jamais como um modelo rígido que impõe uma forma única de se falar.
A fala, vem antes da linguagem, sendo resultado das expressões intuitivas-populares as quais criam orações e sentenças.
A norma resolve “problemas” na boa compreensão lógica estruturada do que se quer comunicar, sendo uma espécie de engenharia na construção da linguagem, que tenta compatibilizar o ritmo dos tempos verbais que comandam ação naquilo que se quer dizer.
Pelo Professor Ricardo Gomes Rodrigues
São Carlos, sp , 29 de dezembro de 2025.
















Comentários